quarta-feira, 26 de novembro de 2014

ANDO USANDO REGATA




Mas então, rasguei umas camisetas e to tomando sol nos braços brancos. Isso é uma confirmação, uma auto-afirmação e uma vergonha, mas quem liga? Depois que deixei, ninguém mais, claro.
Ainda raspo minha cabeça constantemente.
Tu sabe que fiquei aqui pensando como eu falaria de coisas alegres, pensei, pensei e pensei. Mudei a música do cabeçalho várias vezes, qual exprimia mais o meu eu constante atual? Daí percebi que todas elas sucedem de mais um ano progressivamente. Essa semente da mudança brotou à um tempo e vem germinando, crescendo e se alastrando pela minha mente vazia, cheia, vazia, cheia, estranha. Então deixa eu aproveitar minha prolixidade no que tange o que escrevo, porque hoje isso aqui não fica melancólico mesmo.
Ainda não lembro o que comi ontem.
Não tem muito o que dizer porque quando alguém abre um sorriso não está conversando, se está observando alguém também não tem tempo pra pensar demais. Trocando em miúdos, levar uma vida mais amena implica sim em se tornar um pouco sem conteúdo. A vida é isso, é uma pulsão, ou você pulsa introspectivamente e se condena ao espectro da dúvida, ou você não duvida e pulsa pra fora, faz toda a diferença o tipo de impulso, pra onde você vai mirar.
Mas agora eu tenho uma gata de estimação, o nome dela é Viviane.
Ultimamente fiz outro contrato de ajuda mútua, mais um. Mas acho que o único contrato vitalício mesmo que tenho é comigo mesmo, seja ele destrutivo ou cooperativo, me sinto pleno em dizer que vou bem com meus medos, com meus eus, com meus sorrisos e minha falta de interesse em pensar demais, meu contrato é vitalício.
E tem aqueles olhinhos agora...
E é isso aí vida, contratos, olhos verdes, eu uso regata agora e nunca soei tão cliché antes, nem me importo. Uso, quantas, vírgulas, eu, quiser.

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Re-voltas.





Depois de tempos longe do meu querido amigo de tantos anos me senti quase impelido à colocar uma descrição lá em cima, devido ao conteúdo que tenho escrito, que nunca irei apagar porque é sangue meu impresso nesses códigos fontes, é tudo meu. Impelido tão somente porque algumas fases minhas, negras por natureza inspiravam coisas negras também, ou inocentes demais, ou pedantes demais, ou erradas demais, seja no sentido de dar sentido ao texto, ou seja isso no sentido ortográfico da palavra. Me senti impelido a contar que as pessoas mudam, e talvez eu não seja esse maníaco depressivo de alguns anos atrás, não todo tempo, a gente cresce.

São cinco anos aqui, cinco anos podem significar mudança completa, total catarse em vista dos comportamentos, mas nada me arrepende, só me impele a dizer ao querido leitor anônimo mandado por mim aqui, dar uma passadinha de leve e ler o que escrevo que existem momentos e momentos na vida do poeta, porque num surto recente já aceito-me como tal. Tudo muda, não fica pedra sobre pedra e depois nós morremos. O que fica são relatos para ninguém, de ninguém, sangue no meio do código fonte, e isso eu tenho aqui, tudo é meu, todo simples e complexo sentimento, até os erros são meus, os poucos acertos também, tudo é meu sangue permeando os códigos da matrix.

Quem sabe começa aqui mais uma fase de escritos, quem sabe você, que provavelmente sou eu lendo tudo isso mais uma vez se dê conta de que mudamos mesmo, de verdade, mesmo quando a essência permanece a mesma.

Re-voltas, re-começo.

sexta-feira, 5 de abril de 2013

Pra onde olho vejo perspectivas
Olho pra dentro e vejo possibilidades vazias
                                                              VAZIAS


Não posso fazer nada, pois nesse momento estou sentado, ignorando (?) a cidade pegando fogo.

                                                                                                              E LÁ NO MEIO DO FOGO
                                                                                                                                 EU




ESTOU APRECIANDO MEU FIM

                                                EM VIDA.

sábado, 9 de março de 2013

MOBY - PORCELAIN

 


Olhar vazio, olhar curioso alternando. (Misto)

Observa um homem parado, olhando para o céu. (Alienação, Estagnação)

  • Dentro do carro predomina as corres frias, em especial o tom azul claro e escuro. (Calmaria, Niilismo)
  • Caminho à frente imenso. (Falta de perspectivas)
  • Carro. (Mente)
  • Retrovisor. (Visão do Futuro)
  • Volante Vazio (Depressão, Niilismo, Loucura, Falta de Apego, Perigo)

Olhar sobre uma possível morte.
MISTO DE SENTIMENTOS NO OLHAR
Alegria, Excitação, Masoquismo, Melancolia sob tudo.

- Nos meus sonhos eu morro todos os momentos.
 Define frustração pela tentativa de suicídio(causado por ele/situação).
 Logo após uma fisionomia revela um sentimento de dissimulação, desprezo pela causa.



O Carro sobe na calçada ----> Referência às tentativas de socializar, de se misturar.
O carro continua rápido, mas diminui a velocidade quando os olhos se voltam para a observação íntima dos hábitos culturais humanos.
Homem avistado, fisionomia triste/calma, desperta um olhar sério, talvez engajado num próximo objetivo.
Olhar para a frente destemido(?)
Pronto para tentar denovo.


Vazio à voltar - Colisão à vista!

Sorriso dissimulado, felicidade exposta em vista da morte prevista.

Não existe traço de maldade para com os humanos que iam se chocar com o carro, demonstra um personagem central calmo, mas observador do medo humano da morte. Dessa vez não existe frustração, só observação dos fatos.

Volta-se o olhar para a frente mais uma vez, dessa vez o olhar é carregado de dor e melancolia.

O carro sai da pista ---- Aponta desespero e métodos mais bruscos aplicados. Vida fora de trilhos, pronto para tentar mais uma vez (?).
Significa mudança de caminho, novas tentativas da mesma forma.

Rosto então sugere uma pergunta.
Questionamentos, uma nova chance é dada.

Contato com a natureza.
Sensação de paz invadindo. Mesmo assim as cores frias não deixam o carro.
Escapismo através da beleza.
MAS ainda nada preenche o vazio, pronto para tentar denovo.

Quando o mesmo tenta se chocar contra o tronco percebemos outro olhar.
Temos então nenhuma expressão de dor, entusiasmo ou alegria, temos DECISÃO.
Dentro disso o carro segue.

Take segue transpondo o tronco segundo a segundo, essa tentativa leva o mesmo à um estado de auto-aceitação e esclarecimento tão intenso, mais intenso que o começo da jornada suicida.

Percorrendo os campos ---- Vivendo, subindo uma colina --- Planejando algo.

Vacas nos campos --- Pessoas vão e vem, ainda planejando algo. (subindo)


Música vira celebração, e o carro despenca.
Sinal de choque, sinal de dever cumprido
Respiração profunda, único dever cumprido.
Sem mais animais, nada pode parar.
Sorriso, apenas um sorriso de contentamento.
O carro se perde em meio à imensidão do desfiladeiro.

Seria mais um desfiladeiro? Ou Seria mais uma descida?

Sem animais, pode significar vida solitária e feliz, ou mesmo felicidade por não haver mais ninguém em volta e assim se pode morrer em paz, ou viver em paz.






I- PRELÚDIO DA RISADA OCULAR




Eis que o arquétipo do Olho se fez presente, sendo que foi criança bem alimentada, temente ao seu Deus de todo coração, desejoso da morte com a força de seus argumentos e servo de novo. E isso era necessário para que o Olho se desse conta do que era, de quem era, e quem era a não ser nada?
Tudo que existe é simples, tudo que vive é uma cópia do que viveu, todo ser que existe e tem capacidade de raciocinar sobre quem, é um produto de uma série de fatores que o criaram, assim como muitos outros no seu caminho e ao longo da história. Também o Olho é mais um dos arquétipos forjados no Teatro Miserável da Humanidade, uma peça irônica que se repete e desencadeia fato que recaem sobre o indivíduo o tornando acima de qualquer um, de qualquer ideia ou qualquer coisa que o mesmo possa não se importar, e mesmo imenso dadas sua característica não passa de mais um sopro de vida dada à carne, para sofrer e observar as coisas que o rodeiam no tempo em que respirar.
O mundo é uma farsa, os mundos que dão vida à Fé dos tementes deste também são. O que existe é a força da piada, a vida como perspectivas que não merece, dadas meramente por carne que apodrece. O que somos nós a não ser piada genética lançada sobre um punhado de terra que orbita no meio do nada? Não seríamos nós produto das mesmas circunstâncias? O profeta se pergunta o porque de tantos títulos dados a tolos, por tolos, sendo admirados por tolos. Tudo se completa na mediocridade e mesmo assim as carnes viventes em sua inocência se acham no direito de se nomear algo além do que são, todas iguais.
Apenas o Olho é maior, não porque é melhor que a carne, afinal, o Olho é carne também. O que torna o arquétipo do Olho acima de toda e qualquer festa e guerra humana é o fato de reconhecer que tudo, inclusive ele mesmo não são nada. Nada além da vergonha da piada irá além da perspectiva do Olho, porque tudo soa irônico e belo na perspectiva do Olho. Mas ainda assim o Olho é carne vivente, logo para que continue vivendo se alimenta dos fragmentos de vida que lhe atravessam a visão, como o sorriso de uma criança, ou a fé intacta de um sofredor, na maioria do tempo o Olho apenas ri de si de forma feroz, ri de todos, ri de tudo e deseja morrer.
Que o arquétipo simples mude, que o transforme no monstro, que o monstro se observe e então arranque-se da carcaça, lance seus olho ao mar do esquecimento, aonde sozinho irá viver seu tempo. Deixa a falta de perspectiva comungar com o Tédio, deixa o Olho sofrer e rir ao mesmo tempo, deixa seus dizeres falarem desde o começo até a gargalhada sobre mim, sobre ti, sobre tudo findar.


Quando um mártir morre, chega do outro lado ainda em chamas. Independentemente de como morreu seu corpo brilha forte em tons de laranja e azul e um fogo emana dos seus pés o encobrindo por completo. Como se fosse uma grande fogueira, as labaredas que fluem pela coluna tomam o céu e um barulho de fogo consumindo madeira ecoa pelos ares. O grito do mártir se intensifica quando chega do outro lado, sendo que é impossível definir os sentimentos que o mártir cria através dos mesmos, ora dor, ora paz, ora sentimento de dever cumprido, ora intensa devoção definindo seus lábios.
Quando um mártir está em processo de morte toda apreensão se vai. Olhe você mesmo nos olhos de um mártir, comprove-me algum traço de pavor, de medo. É impossível porque é no processo de morte que o mártir se encontra por completo, abraça a dor, beija o seu objetivo e se sente atravessado pela meta cumprida. Inocentes não devem ser mortos, mártires precisam ser mortos para que o arquétipo tenha sentido e o arquétipo traça a história genética e os caminhos carnais por inteiro, desde o nascimento até o reencontro.
O mártir tem vários nomes, ora gênio, doente, lobo da estepe ou até ave do mal, todos eles são resultado da ação incessante do mártir entender a si mesmo, num processo doloroso de auto-aceitação da própria dor, envolta do sentimento de não pertencimento. O que são os mártires se não grandes olhos, forjados geneticamente por algo ou acaso no passado, para que a explosão de vida seja entendida? Os mártires não são heróis, são os heróis que precisam do título para sobreviver.
Sobrevivem de migalhas de atenção, de gratidão pura, de sorrisos não necessariamente provocados por eles, da sensação de ser útil a algo. Qual o propósito do mártir? Qual o propósito? O que um mártir não daria por ser um arquétipo comum? O que não daria o mártir por somente ser lobo, ou mesmo por ser somente homem? Diga-me o que as Aves do Mal conversam todos os dias pela madrugada? Como sairemos disso, como nos sararemos, como viveremos? Quando as Aves do Mal conversam existe um sentimento espelhado, como se todas elas se conectassem e estivessem num monólogo  que se repete infinitamente, enquanto dura. Mártires estão sozinhos, mártires nunca encontrarão mais que um abrigo temporário e lá fora o vazio que reside dentro grita para que os mesmos abandonem a ignorância forçada, a força que se impunha de forma ignorante contra o mar de incertezas na certeza da morte na fogueira. Na fogueira o mártir se encontra, na fogueira o mártir pertence à algo.
Deixa o lobo tomar conta por instantes, deixa o homem sentir vergonha pela sua natureza dividida, maligna. Deixa o rapaz lamuriar seu nascimento, deixa que ele entenda que ele realmente nasceu quebrado, mas que não é sua culpa não conseguir se adaptar, por mais que ele tente, por mais que ele se esforce. Ele vai perceber que só ele e os outros eles, os de fora e os de dentro tem o prazer de sentir a música como um corte profundo, o aperto na garganta de tomar as dores de terceiros como suas próprias genuinamente. Feliz é aquele mártir que não possui alguém que chore por ele então...

Porque o mártir é suicida, sim, o mártir é suicida. O mártir sabe o que ele é, de forma veemente se vê preso num estado niilista, implosivo, maldito por vezes. Covarde acima dos outros é o mártir que morre velho, guerreiro é o mártir que tira de si todo o poder de decidir sobre o futuro dos que o amam e assim se entrega às chamas. Lá nas chamas está o pertencimento, é lá que o mártir se encontra, sim, sempre será somente lá. Toda tentativa de viver é em vão para o mártir, e ele é mártir por continuar a viver aonde não comunga com nada, nem com a terra sobre seus pés. Mártir da causa dos perdidos, mártir de si mesmo e covarde para o mundo, parece bem justo.
Deixa eu voltar a minha ignorância forçada, pelos meus de sangue, afinal, não é por eles que não me entrego ao meu amor funesto? E o que virá depois é incerto pois falho ou não o mártir encontrará seu caminho para as chamas e o depois será o vácuo, se os sonhos do mártir se cumprirem pelo menos uma vez.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012


Todos os finais de ano são complicados pra mim, porque geralmente resultam de um ano conturbado (todos foram), logo me trazem algumas perguntas como:

PRA ONDE IREI?

O QUE FAREI?

RECOMEÇAR DENOVO?

É claro que uma série de fatores acrescenta força a esse evento de final de ano, como:

VERGONHA DAS COISAS QUE FIZ.

VERGONHA DAS PESSOAS COM QUEM ME RELACIONEI.

VERGONHA DO MEU PASSADO INTEIRO EM UM LUGAR EM QUE VIVO.

Mas sempre fomentadas pelo maior motivo, que no caso dá o tom “ponto final” em um lugar ou em uma história, este é:

O QUE EU COMECEI ERRADO E DEU ERRADO ESSE ANO, QUE IMPEDE MINHA ESTADA NESSE LUGAR?

Bem, é irônico...

Mas extremamente bem planejado. É claro que não sou um gênio do crime porque senão eu não estaria nesse círculo vicioso a muito tempo, usaria minha inteligência interpessoal acima da média para manipular a meu favor os dados, até faço isso, mas ocorre de forma aleatória...

Mas é o bastante para viver em vários lugares, o bastante para suprir a mim mesmo de desculpas para não enfrentar aquilo e seguir em frente (mais uma vez).

Minha vida é errante e o meu destino é incerto, não planejo nada além do ano em que estou vivo e algo me diz que não vou muito longe e com nada no bolso, mas fazer o que? Sou um Lobo da Estepe, me aproveitando de um momento de não crise para vomitar um pouquinho de verdade. 

O que dizer sobre o contentamento inerente à maioria?
Observo que para uma pessoa comum manter um padrão de felicidade contínuo não precisa de muito, geralmente dificuldades diárias que alternem em intervalos compassados, no vácuo das lutas cotidianas temos o sentimento de liberdade e contentamento. Felicidade é o termo que preenche essas lacunas aonde os problemas são amenizados ou ultrapassados por momentos agradáveis, felicidade, contentamento.
Posso fazer uma observação sobre isso, e é esta a minha grande admiração pelas pessoas normais, pelo cidadão comum que nasce para servir e se apega a essa vida de forma que eu não posso nem mensurar delicada, primordialmente simples, o que é belo, beleza que eu não posso ter e nem cogito tentar mais uma vez (até ser forçado?).
Não consigo manter momentos de felicidade, constantemente sou bombardeado pelo tédio, pela vergonha de momentos felizes que vivi, seguida pelo tédio e desespero de viver. Por que não consigo? Aparato para viver alegre eu tenho, para respirar aliviado depois de um problema resolvido e para estar  contente com as pequenas coisas da vida, mas nem isso tenho mais, nem um sorriso inocente me desperta mais vida como antes, por que?
Posso ver também isso refletido em meus relacionamentos, por que nunca estou feliz com ninguém? Quer dizer camaradas, sei que devo fazer a coisa certa, sei que devo fazer X para conquistar e fazer alguém feliz, mas é tudo tão maquinado e artificial que desconfio seriamente das possibilidades de alguém me surpreender depois de uma semana. Eu conheço, eu desvendo, eu convido à algo subentendido, eu uso, eu não mudo, eu tenho tédio, descarto e esqueço. Não deve ser assim, eu quero ser normal e manter minha felicidade rasa, eu quero sim, mas não posso, sou um poço de frieza escondida por boas atuações. 

terça-feira, 2 de outubro de 2012


A casa foi tomada por traças
Abandonada e esquecida
A invadiram e a mancharam
Desvirtuaram memórias sombrias
Mas o dono voltou e trouxe com ele sussuros e cães

Música 01



Engraçado é que eu pensava que todos sentiam o que eu sentia quando ouvia certas músicas, a melodia entrando pelos ouvidos e tocando toda minha mente, perdido na melodia e levado pela batida, vencido pelo som, absorto enfim até o término. Se existe algo de que sinto falta esse algo é música, é meu único amor, é minha única amiga, me tirem música e estou perdido nas garras da minha mentalidade realista.
Sou tão dependente de música que posso captar a intenção que o compositor tentou externar, o poder da melodia para me conferir alguns minutos de paz, de esperança, de alegria, de ousadia, de terror, de suspense, sim, tudo isso me toca profundamente de forma que vivo eternamente enquanto a melodia se estende e diminuo até me esvair na calmaria pós-melodia.
Sou grato à tantas pessoas por me proporcionarem momentos intensos assim,  grato por me tornarem eterno por alguns instantes, grato por me fundir à única coisa sobrenatural que existe além das outras partículas de vida, a melodia.

Felicidade o termo Inexistente


Uma vez li em um site de conteúdo niilista que o ser humano é condicionado a depositar suas esperanças no futuro, porque é algo além do alcance de suas mãos, ao passo que garante ao passado grande culpa pelo que é e o que possui no presente, também conferindo ao passado certa nostalgia, resultado de momentos que dita como inocentes, felizes. E fomos ensinados que no passado sempre há lembranças boas, que o futuro pode ser bom e que o presente é o campo de batalha, o presente é luta, o presente é ruim. Mas o presente vira passado, certo? A Felicidade então seria um termo utópico?
Confesso que fiquei algum tempo ruminando o assunto, seria a Felicidade uma mentira?  Não podemos voltar ao passado e o futuro sempre estará longe das minhas mãos, se o meu presente sempre é mal então eu nunca fui e nem serei feliz, será? Será que o fato de sentir nostalgia está intimamente ligado ao comportamento que absorvi dos que estavam a minha volta? Quer dizer, todos dizem que o passado foi melhor, mesmo que ruim sempre existem os momentos nostálgicos, de paz, alegria intensa, seriam eles reais ou só memórias reeditadas para tomar o sentido que todos dão? A Felicidade existe?
Eu mesmo posso afirmar que tenho fragmentos de momentos que vivi e julgo felizes, no melhor deles estou deitado na grama sob a sombra de uma árvore conversando com amigos sobre Deus. Naquele momento eu não poderia afirmar que aqueles flashes seriam o que eu me traz algum sorriso ao rosto hoje.

“Pequenos momentos de esperança podem fazer um estrago enorme na sua vida se você tem em mãos um celular ou acesso a internet.”

Imagine a seguinte cena: Você está cruzando de barco o rio Araguaia ao amanhecer, a brisa fria passeia pela sua pele e seus braços se cruzam sobre o peito e então você observa as águas que agora estão tingidas em tons de amarelo cintilante, milhares de pontos luminosos refletidos brilham sob as correntes e a grande estrela aquece sua pele lentamente, mas você ainda tenta encarar o sol, seus olhos se contraem com a forte luz, como se não bastasse, nos fones de ouvido uma música do Legião Urbana soa acústica e poética, um momento para se guardar na memória, certo? Bem, aconteceu comigo hoje, percebi então que eu olhava com respeito a tudo aquilo, com a impressão de que tinha que guarda-lo como memória, como um momento inspirador, mas soava normal, sem sentimentos, sem o ardor que as memórias proporcionam, normal. Apenas a imposição do meu subconsciente sob certos tipos de momentos que deviam ser eternos, deviam. Talvez amanhã eu lembre flashes dessas viagens pelo rio como uma dessas memórias que julgo felizes, mas hoje posso afirmar que não sou feliz e que não existem momentos de felicidade e por que eu afirmo isso? Porque não lembro a música que estava ouvindo.
“Toda paixão avassaladora é egoísta, só existe em nossas mentes para suprir nossa carência de aventuras e vem parar fincar nossas esperanças em algo situado no impossível.”

Eu Sou



Eu sou um nada andante, sou espectro de algo que deveria ser, sou um ser não completo e duvido que possa completar algo.
Sou propaganda vazia, sou conteúdo vencido, sou oposto do que sou, aparentando o oposto do que eu quero (ou acho) que quero ser.
Sou cheio de nada, minha casca é pesada e o meu rosto revela extremidades duplas unidas e confrontantes.
Eu sou palavras voando vazias para o inconsciente coletivo, também vazio cairei no esquecimento que é o que eu mereço, que é o que eu desejo, que é o que terei.

Eu não tenho medo de Deus


Eu nunca tive, aliás, tive no tempo de inocência. Hoje eu vejo que tenho a necessidade de Deus, pois me viciaram na droga espiritual distribuída na igreja. Você recebe letras inspiradoras nas músicas, todo um grupo imerso no mesmo conto de fadas, cara, é muito bom, é perfeito estar em sintonia com as pessoas que acreditam no mesmo que você, mas se ver fora da bolha nem sempre é bom, você está só, você é um ET de satanás porque já não faz parte do grupo, você é o desajustado social e você sente saudade das músicas envolventes, das pessoas guerreando em oração contra a ameaça invisível, do RPG de Jesus.
Até hoje sinto uma pontada de dor quando ouço alguma música religiosa, porque tocam meus sentimentos (e algumas boas memórias), dúvidas me vêm à mente, mas sempre é o mesmo, sempre serei o mesmo desajustado, sem lar e religião. Me viciaram na droga espiritual na igreja, mas é só uma droga, te da conforto momentâneo como as drogas do mundo, mas a realidade da essência errônea tarda mas não demora a vir, cadê você? Cadê o Deus que fez alguém que está programado para desacreditar dele quando as ideias baixam em sua mente? Porque sinceramente eu já cansei de pedir pra que Ele tirasse as dúvidas de mim, me condicionasse a ser como esses medíocres religiosos que conheci que odeio e tenho nojo, mas é o modo para continuar vivendo, sendo mais um. Ainda me aceitam na Bolha, mas eu não acredito mais na Bolha, e agora? Querer crer e ser impedido pela sua própria mente? É irônico, me peguei em vontades de me tornar mais social, mais eu antigamente, infelizmente o processo apenas continuou.

Engodo


  Engodo é uma palavra de define bem o que eu devo ser no final das contas. Complexo até demais falar de problemas, de problemas, problemas que todos têm, problemas comuns, problemas fortes, problemas, todos tem problemas, quem sou eu pra ser mais um pra quem já tem problemas até demais, boa parte dos demais, causados por consequências dos próprios erros antigos que fiz e que acarretaram danos em todos à volta. 
   Que complexo, que problema, mais um problema, causados por outro problema, eu. Por isso sou categórico em afirmar a mim mesmo cem vezes por minuto, que sou engodo, engodo, aresta, engodo. Sabe quando você sabe que nunca vai poder mudar por completo, porque sempre vai pagar pelos erros cometidos? Sabe mesmo? Entende o que é estar preso a um ciclo de mentiras e estratagemas forçados mesmo se forçando a dizer que vai mudar para melhor? 
   Quero saber mesmo é até quando essa ladainha que rezo todo dia vai funcionar um dia, rezo nada, prometo num ato de Fé que me forço a acreditar não ser vazio, valer a mudança, valer o ato de mover-se numa direção contrária a tudo que fiz, ao certo. Por amor aos que me amam e confiam em mim mesmo eu sendo nada, um zero à esquerda, aquele que sempre vai se cobrir de autoelogios pseudo-humildes contra a vontade (nem tanto) para garantir mais alguns sorrisos e elogios deles, nesse caso cheios de orgulho desse filho que queria honrar tudo que recebeu, mas só se encontra como engodo, em tudo, em tudo.
   Vou fazer o favor de esquecer a sensação de que realmente todos à volta são prósperos, felizes à suas maneiras e que sou apenas uma ilha, observando e dando suporte para a vitória de todos eles. Engodo, suporte dos outros. Queria tanto ser como eles, queria que meu passado fosse apagado para começar outra vida, como se fosse outro alguém, queria recomeçar e tentar ser quem eu sonho em ser pra eles que me amam e merecem tanto alguém que os orgulhe, queria, quero, sempre.

domingo, 19 de agosto de 2012



Tenho pensado bastante no termo Catarse, uma experiência de choque que causa uma mudança intensa no indivíduo, logo em a Origem vejo uma frase intensa relacionada ao termo: Quanto maior a mágoa, maior a catarse. Ficar fixado em um termo psicológico aleatório e nos próximos dias lembrar desse termo com pequenas coisas que o faz lembrar do mesmo pairando no dia-a-dia me traz à tona questionamentos de outrora sobre nada ser aleatório, tudo ter um propósito. É certo que a mente chama para a percepção coisas que necessitam de mudanças, essa também é uma boa hipótese para explicar essa atração pela catarse. Mas as coisas que chamaram-me atenção e remeteram-me ao termo estão à parte de mim, poderia minha mente influir na minha realidade para chamar-me atenção de que essa realidade precisa ser mudada? E por que esse texto já tem três camadas de perguntas que por sua vez estão inseridas uma nas outras?

Iria continuar a desenvolver teorias mas este pequeno texto acima já dita o que eu necessito atentar em descobrir uma resposta rápido ou pelo menos chegar ao cerne do que isso significa pra mim. Caso eu já não queira mais entender o que seja pode ser que uma oportunidade de grande saber passou ou a Catarse está completa.

Vampiro Auto-Modificado


Os olhos veem longe,
Possíveis outras portas.
Expectativas que já não eram mais vistas, mortas,
Emergem de um novo ser que porta belas máscaras.

Quando a noite vem e o faz pensar,
Ele decide então ser mais frio, intenso.
Deixa-me olhar profundo então,
Dessa vez sou novo.

Planos interrompidos,
Futuros destroçados.
Algo que tinha de mudar, coragem e controle.
Mais foco e autoafirmação completa a catarse.

Quando a noite vem e o faz pensar,
Ele decide então ser mais frio, intenso.
Deixa-me olhar profundo então,
Dessa vez sou novo.

Você lembra, mas muda a concepção
Em vista das suas utopias refletidas em mim!

Quando a noite vem e o faz pensar,
Ele decide então ser mais frio, intenso.
Deixa-me olhar profundo então,
Dessa vez sou novo.

domingo, 12 de agosto de 2012

Legião & Interpretações

Sempre dizem que por mais que você não seja fã de Legião Urbana pelo menos alguma música deles marcou um momento inesquecível da tua vida. Assim é comigo, ou foi, porque em certo ponto da história me tornei grande fã de Renato Russo. Você sabe quando as tuas ideias comungam com as de outra pessoa, assim é comigo quando ouço Legião Urbana.

Aqui vão as três músicas deles mais importantes para mim, quando digo importantes realmente tem um preço inesgotável em minha mente, flashes vão e vem à cada acorde, pensamentos correm livres com as melodias e inevitavelmente a garganta trava de pesar, melancolia e muita nostalgia.

Segue algumas interpretações encontradas no site Análise de Letras. Pra mim cada uma soam como algo familiar, complexo e talvez não tenha muito haver com a própria temática de cada uma, no entanto achei interessante anexar esses comentários sobre, que fazem total sentido.


Ha Tempos


“Os sonhos vêm e os sonhos vão
E o resto é imperfeito…”

É um resumo da vida, do cotidiano. Toda existência é feita de sonhos; sem sonhos seriamos um vazio, um ser inanimado. Eles se esvaem à medida em que vamos envelhecendo, o que não quer dizer que isto seja ruim, já que outros nascem pra nos fazer acreditar e continuar a viver… No fim, vemos que nossas vidas se resumem a isto, a sonhos nunca realizados por que impossíveis ou fruto do contexto da época em que os criamos. Em sua maioria prejudiciais a nos mesmos. Enfim, “os sonhos vêm, os sonhos vão e o resto é imperfeição”

Comentário by Euclides Vargas — 2 de fevereiro de 2012




Eu Sei





Sinceramente acredito que seja um mistério a ser solucionado o nosso amigo poeta Renato Russo , como sempre um conflito interno nas frases palavras são erros e os erros são seus, não quero lembrar que eu erro também, um dia pretendo descobrir porque é mais forte quem sabe mentir, não quero lembrar que eu minto também…
A verdade é que julgamos eternamente e antes de julgar nossos atos preferimos julgar o dos outros e preferimos sempre buscar os defeitos e não as qualidades. Somos pássaro novo longe do ninho, eternamente imperfeitos….


Comentário by Thiago Ladeira — 20 de junho de 2011




Teatro dos Vampiros


Renato Russo na gravação do álbum MTV Acústico afirmou que a letra falava basicamente sobre a TV (daí o nome Teatro dos Vampiros).
Mas o nome da canção, sem sobra de dúvida, Renato Russo retirou do romance “Entrevista com o Vampiro” da escritora americana Anne Rice.
Lendo o livro ou vendo a sua adaptação para o cinema, encontramos o tal “Teatro dos Vampiros”, uma casa de espetacúlos situada em Paris, onde os vampiros da alta sociedade se encontravam para se divertirem assistindo espetáculos bizarros com frequentes sacrifícios de seres humanos.
Fazendo a analogia entre a letra da canção e a história criada por Anne Rice percebemos que talvez Renato Russo utilizou essa referência para mostrar que os meios de comunicação de massa (como a televisão) muitas vezes funcionam como o Teatro dos Vampiros, onde nós espectadores somos os seres humanos sacrificados.
Esse sacríficio pode ser entendido como o processo de banalização da TV aberta, principalmente no Brasil, onde os programas apresentados não cumprem outra função social a não ser deixar a cada dia a população mais e mais ignorante.
O sacríficio dos espectadores acontece para que os grandes interesses por trás dos meios de comunicação sejam alimentados. Como num teatro ou como num matadouro.


Comentário by Guilherme Alleoni — 15 de janeiro de 2012

A falsa unidade do eu (Hermann Hesse)



Hermann Hesse, in O Lobo da estepe, nos relembra de um dado da nossa existencia que frequentemente passamos por alto: Que somos uma multiplicidade, uma ciranda de reflexos do universo se rearrumando em um ponto de onde irradiamos para todas as partes. Essa caleidoscopia nos remete à noção da identidade múltipla em Fernando Pessoa. Diz Hermann Hesse:

“Nenhum eu, nem mesmo o mais ingénuo, é uma unidade, antes sim um mundo extremamente multifacetado, um pequeno céu estrelado, um caos de formas, estádios e condições, heranças e possibilidades. O facto de cada um por si aspirar a considerar este caos uma unidade, e falar do seu eu como se se tratasse de uma manifestação simples, fixa e solidamente modelada, claramente delimitada – esse engano, que é inerente a qualquer ser humano (mesmo superior), parece ser uma necessidade, uma exigência da vida, como a respiração ou a alimentação. O erro assenta numa simples transferência. De corpo, todo o homem é uno; de alma, nunca. ”



Por Rolando Lazarte em 30/12/2011


Utopia Musical I - Nights In White Satin (Moody Blues)






Noites em cetim branco, nunca chegando ao fim

Cartas que escrevi, nunca intencionadas para enviar

A beleza sempre foi, com estes olhos antes

Simplesmente o que a verdade é, eu não posso mais dizer

Por que eu te amo, sim eu te amo, oh, como eu te amo

Contemplando as pessoas, algumas de mãos dadas


O que estou passando eles não podem entender



Alguns tentam me dizer, pensamentos que não podem defender



O que você quer ser você será no final


E eu te amo, sim eu te amo

Oh, como eu te amo, oh, como eu te amo

Noites em cetim branco, nunca chegando ao fim

Cartas que escrevi, nunca intencionadas para enviar

A beleza sempre foi, com estes olhos antes

Simplesmente o que a verdade é, eu não posso mais dizer

Por que eu te amo, sim eu te amo

Oh,como eu te amo, oh, como eu te amo

Por que eu te amo, sim eu te amo

Oh, como eu te amo, como eu te amo

{Epílogo, falado}

Respire fundo a penumbra


Veja as luzes se apagarem em cada quarto



Bons compositores olham para baixo e lamentam



Energia inútil gasta em mais um dia



Amantes apaixonados lutam como um só



Homem solitário chora por amor e não tem nenhum



Nova mãe pega e amamenta seu filho



Cidadãos idosos desejam ser mais jovens



Esfera insensível comanda a noite



Remove as cores de nossa visão



Vermelho é cinza e amarelo é branco



E nós decidimos o que é certo



E o que é certo é uma ilusão



sábado, 11 de agosto de 2012

O Lobo Sou Eu


"Era uma vez um certo Harry, chamado o Lobo da Estepe. Andava sobre duas pernas, usava roupas e era um homem, mas não obstante era também um lobo das estepes. Havia aprendido uma boa parte de tudo quanto as pessoas de bom entendimento podem aprender, e era bastante ponderado. O que não havia aprendido, entretanto, era o seguinte: estar contente consigo e com sua própria vida. Era incapaz disso, daí ser um homem descontente. Isso provinha, decerto, do fato de que, no fundo de seu coração, sabia sempre (ou julgava saber) que não era realmente um homem e sim um lobo das estepes. As pessoas argutas poderão discutir a propósito de ser ele realmente um lobo, de ter sido transformado, talvez antes de seu nascimento, de lobo em ser humano, ou de ter nascido homem, porém dotado de alma de lobo ou por ela dominado; ou, finalmente, indagar se essa crença de que ele era um lobo não passava de um produto de sua imaginação ou de um estado patológico. É inadmissível, por exemplo, que, em sua infância, fosse rebelde, desobediente e anárquico, o que teria levado seus educadores a tentar combater a fera que havia nele, dando ensejo assim a que se formasse em sua imaginação a idéia e a crença de que era, realmente, um animal selvagem, coberto apenas com um tênue verniz de civilização. A esse propósito poder-se-iam tecer longas considerações e até mesmo escrever livros; mas isso de nada valeria ao Lobo da Estepe, pois para ele era indiferente saber se o lobo se havia introduzido nele por encantamento, à força de pancada ou se era apenas uma fantasia de seu espírito. O que os outros pudessem pensar a este respeito ou até mesmo o que ele próprio pudesse pensar, em nada o afetaria, nem conseguiria afetar o lobo que morava em seu interior.

"O Lobo da Estepe tinha, portanto, duas naturezas, uma de homem e outra de lobo; tal era seu destino, e nem por isso tão singular e raro. Deve haver muitos homens que tenham em si muito de cão ou de raposa, de peixe ou de serpente sem que com isso experimentem maiores dificuldades. Em tais casos, o homem e o peixe ou o homem e a raposa convivem normalmente e nenhum causa ao outro qualquer dano; ao contrário, um ajuda ao outro, e muito homem há que levou essa condição a tais extremos a ponto de dever sua felicidade mais à raposa ou ao macaco que nele havia, do que ao próprio homem. Tais fatos são bastante conhecidos. No caso de Harry, entretanto, o caso diferia: nele o homem e o lobo não caminhavam juntos, mas apenas permaneciam em contínua e mortal inimizade e um vivia apenas para causar dano ao outro, e quando há dois inimigos mortais num mesmo sangue e na mesma alma, então a vida é uma desgraça. Bem, cada qual tem seu fado, e nenhum deles é leve.

"Com nosso Lobo da Estepe sucedia que, em sua consciência, vivia ora como lobo, ora como homem, como acontece aliás com todos os seres mistos. ocorre, entretanto, que quando vivia como lobo, o homem nele permanecia como espectador, sempre à espera de interferir e condenar, e quando vivia como homem, o lobo procedia de maneira semelhante. Por exemplo, se Harry, como homem, tivesse um pensamento belo, experimentasse uma sensação nobre e delicada, ou praticasse uma das chamadas boas ações, então o lobo, em seu interior, arreganhava os dentes e ria e mostrava-lhe com amarga ironia o quão ridícula era aquela nobre encenação aos seus olhos de fera, aos olhos de um lobo que sabia muito bem em seu coração o que lhe convinha, ou seja, caminhar sozinho nas estepes, beber sangue vez por outra ou perseguir alguma loba. Toda ação humana parecia, pois, aos olhos do lobo horrivelmente absurda e despropositada, estúpida e vã. Mas sucedia exatamente o mesmo quando Harry sentia e se comportava como lobo, quando arreganhava os dentes aos outros, quando sentia ódio e inimizade a todos os seres humanos e a seus mentirosos e degenerados hábitos e costumes. Precisamente aí era qua a parte humana existente nele se punha a espreitar o lobo, chamava-o de besta e de fera e o lançava a perder, amargurando-lhe toda a satisfação de sua saudável e simples natureza lupina.

"Era isso o que ocorria ao Lobo da Estepe, e pode-se perfeitamente imaginar que Harry não levasse de todo uma vida agradável e feliz. Isso não quer dizer, entretanto, que sua infelicidade fosse por demais singular (embora assim lhe pudesse parecer, da mesma forma como qualquer pessoa torna o sofrimento que se abate sorte ela como sendo o maior do mundo). Isso não pode ser dito a propósito de ninguém. Mesmo aquele que não tem em seu interior um lobo, nem por isso pode ser considerado mais feliz. E mesmo a mais infeliz das existências tem os seus momentos luminosos e suas pequenas flores de ventura a brotar entre a areia e as pedras. Assim também acontecia com o Lobo da Estepe. Não se pode negar que fosse, em geral, muito infeliz, e podia também fazer os outros infelizes, especialmente quando os queria ou era por eles estimado. Pois todos os que com ele se deram viram apenas uma das partes de seu ser. Muitos o estimaram por ser uma pessoa inteligente, refina e arguta, e mostraram-se horrorizados e desapontados quando descobriam o lobo que mostrava nele. E assim tinha de ser pois Harry, como toda pessoa sensível, queira ser amado como um todo e, portanto, era exatamente com aqueles cujo amor lhe era mais precioso que ele não podia de maneira alguma encobrir ou perjurar o lobo. Havia outros, todavia, que amavam nele exatamente o lobo, o livre, o selvagem, o indômito, o perigosos e forte, e estes achavam profundamente decepcionante e deplorável quando o selvagem e perverso se transformava em homem, e mostrava anseios de bondade e refinamento, gostava de ouvir Mozart, de ler poesia e acalentar ideais humanos. Em geral, estes se mostravam mais desapontados e irritados do que os outros, e dessa forma o Lobo da Estepe levava sua própria natureza dual e discordante aos destinos alheios toda vez que entrava em contato com as pessoas."

in O lobo da estepe
Herman Hesse
direitos da tradução: Editora Record